A medida do mundo; é a visão ou o cinismo?

Estava pensando aqui, quando foi que a percepção individual da “verdade” passou a ser regra? Será tão difícil assim, entender-se como falho, alguém em construção, um caminhante na estrada da vida? Será assim tão difícil parar de “cagar regra” para os outros que não são você? Como é possível buscar uma convivência harmoniosa socialmente, se não somos capazes de aceitar nossas falhas e enxergar a limitação como um fator intrínseco? Mantendo a dúvida e amenizando as certezas, e com isso, reduzindo o hábito de julgar… Quanto mais estudo, mas entendo que sei pouco, que minha visão é limitada, que minha percepção está eivada de máculas…

Por quê temos tanta gente julgando, e tão poucas fazendo perguntas? Será que a preguiça de pensar e o medo de se ver, irão guiar a nossa existência até o túmulo?

É difícil imaginar que tantas pessoas preferem viver sem entender a si. Que há satisfação em viver fazendo o mesmo de sempre, acreditando nas mesmas coisas, sem duvidar nem por um segundo de sua visão particular de mundo. Me parece muita presunção, sabe?

Como é possível, pensar no mundo, nas visões, nas inteligências todas, uma montanha de conhecimento; mas mesmo assim, a parcialidade da visão própria de mundo, permanece intacta, e ainda assim, um contrassenso, essas mesmas pessoas demonstram inseguranças infantis… Como é possível que alguém possa manter-se impassível ante ao universo vasto de sua própria ignorância?

Me tira o sono o “não saber”, pois tenho medo de ser infiel; primeiramente comigo e depois com a verdade. Parece-me, que negar a verdade, ou não buscá-la com todas as forças, é a contribuição definitiva para a injustiça, a mentira, e daí em diante, diversas mazelas que oprimem o potencial maior que temos, em algum lugar do futuro…

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O dia que descobri sem entender, o melhor do dia…

Lala

Na areia do mar
São escritas as lendas
Onde ao luar
No mistério vê-se a fenda
Solta no ar
Uma fada de luz
Brinca com as ondas
Brincando seduz
Chamo as estrelas
Do céu e do mar
Como é bom vê-las
Sorrir e brilhar

Fiz esse poeminha para a minha irmã, há uns 15 anos… Procurando algo em meus cadernos, encontrei isto e lembrei do dia em que isso ocorreu…

Houve um tempo, em que eu forçava os limites, passava algumas noites em claro escrevendo, pois estava convencido de que deveria dormir apenas um dia, ficando acordado no dia seguinte, e assim o fiz, por pouco tempo, devo acrescentar… Juventude é uma época engraçada; tanta potência e tanta prepotência, que o conhecimento de si, não é lá algo muito atraente. Há tanta força, que as consequência não intimidam, e talvez por isso, essa —e outras— experiências, faziam sentido, pelo menos matematicamente a conta fechava, mas sempre faltam dados quando a equação é montada por alguém inexperiente.

Bem… Minha irmã, sempre me pedia para ir comigo à praia, porque após a morte do nosso pai, ela saia pouco, então combinei com ela, que devia ter seus 13 anos e com minha outra irmã, —achei que deveria ser justo também com ela e levá-la também— quatro e quarenta e cinco, vou acordá-las, elas são crianças e como tal, a vontade de sair do aconchego da cama pouco antes do sol nascer, não é muita não. Mas trato é trato, e insisti um pouco. Marianne desistiu, mas Laurênia [Lala] acordou. Esperei ela se arrumar, e caminhamos até a praia, morávamos a poucos quarteirões na época. O céu, ainda estava uma miríade de cores e formas, o tempo estava nublado, frio ainda; o sol já havia saído, mas ainda não tinha se apresentado, estava colorindo as nuvens pesadas, em tons de azul e roxo, que a luz do sol tornara laranja, vermelho e rosa. Nas ruas, quase não havia movimento, e caminhamos quase sem conversar, até avistar a areia.

Chegamos e o céu estava mais claro, o azul e o roxo, estavam dando lugar aos tons de amarelo, mas ainda havia laranja e rosa, tudo misturado, um céu lindo, uma pintura, que não haveria outra igual. O cheiro do mar, o barulho das ondas, a textura da areia, aquilo energizou minha irmã, que não se conteve e começou a correr. Sorria, pulava, rodopiava no ar, naquele momento, percebi a beleza que há no agora, a inocência daquela criança, que junto comigo, havia perdido o pai, cuja família perdera uma parte da estrutura, estava feliz; pela praia, pelo passeio, pela beleza que havia em todos os lados, não havia brecha para nada que não fosse o belo. A inspiração daquele momento, era densa, porém minhas limitações eram maiores do que são hoje, só consegui fazer um poema curto, só aproveitei aquele momento, mas o aprendizado demorou muito para chegar, esqueci, durante muito tempo aquele céu, a alegria e o riso, que me trouxeram uma lição que demorei muito a compreender; a vida continua, há pouco tempo para gastar com o que passou, melhor mesmo, é se deixar encantar pela vida, pela beleza, onde a alegria inocente de ver o céu e o mar são tudo o que interessa, e dedicar-se a isso por um momento, faz toda a diferença do mundo.

Milton Lavor

O tempo, o vento e o mar

Navegamos no tempo,
Mas esse, não se deixa navegar.
Não nos é permitido,
Então temos que ousar.
Nosso destino na torrente,
É sempre contrariar,
O que impõe a corrente
O que diz esse mar.
Somos levados pelo vento,
Arrastados pela maré;
E fustigados pelo tempo, buscamos,
Com algum sucesso até…
Remar com as mãos
Numa montanha de esforço.
P’ra obter algum progresso,
P’ra livrar o pescoço.
Na esperança de ter o que peço,
Ansioso por achar direção.
O cansaço nunca confesso
Pois parar nunca foi opção.

Somos insignificantes ante o tempo,
Somos grão de areia nesse mar.
O tempo e o vento nos olham,
Estamos no mesmo lugar.
Mas diante dos nossos olhos.
Aquela distância ínfima para o mar,
É uma jornada trilhada,
É o caminho e a estrada,
É o que chamamos de vida,
É o nada, que nos coube nadar.

Milton Lavor

Súplica ao medo

 

Que se vá de minha alma,
E devolva o espaço que é meu,
Que permita a volta do belo,
E amanheça o que anoiteceu.
Medo que mora em meu peito,
Irás, e não serás saudade.
Sem ti, no meu dia perfeito,
Com o bem, tudo o mais é vontade,
Potência a que sou afeito,
Meu jeito de eternidade.

Milton Lavor

Existência dormente

Amargarei minha solidão, recluso em desespero e melancolia, onde a respiração terá um eco de dor, um suspiro advindo do corpo alquebrado…

Agonia será meu fardo, e a dor pontuará cada palavra de expressão de uma vida sem calor.

O frio levará embora a sensibilidade, e todo toque perecerá nesse dorso que só conhece agruras.

O amanhã uma promessa de pesar, para quem hoje sobrevive por costume e não por gosto.

Não serei mais nada em vida, pois assisti o meu próprio funeral, onde a esperança jaz sem alento.

Minh’alma será só uma lembrança, na casca oca que restou-me ser.

Ademais, o mundo já não será meu lar, mas o julgo de uma existência vazia de significado; e será o tempo que me resta, o prazo deste cárcere, onde forçado a estar, vivo.

 

Felicidade de final de semana

Final de semana chegando e com ele, o pensamento no momento do lazer, mas há que se pensar; será que é saudável ser feliz apenas nos finais de semana? Ou será que a verdadeira face da felicidade nos escapa? O que é felicidade?

Possivelmente a felicidade esteja sempre presente, só não nos damos conta; é possível que ela seja, um conjunto de momentos, coisas pequenas; o cheiro do pó de café, ao abrir o pote; a admiração pela inocência de uma criança brincando ou até um abraço de um amigo, que encontramos rapidamente na correria, mas fazemos questão de abraçar. Essas coisas não são grandiosas, e costumam pairar na memória até serem arquivadas. Não há apoteose, pois são momentos corriqueiros, mas são essas frações que constroem a felicidade.

Acredito que a felicidade é isso; um mosaico de momentos esquecidos, que quando vistos à distância, vemos uma imagem; essa é a nossa vida, e é isso, que me parece ser felicidade. Há uma frustração constante, pois buscamos a felicidade episódica, instigados pela narrativa da inadequação, somos ensinados a acreditar que só há felicidade fora de nós, fora de casa, no incomum; realmente existem momentos felizes na felicidade episódica, mas isso não é felicidade em si, é apenas mais uma peça do mosaico, a chave está em olhar para dentro, e observar essa imagem, ser grato por essa estar em construção e saber apreciá-la em alguns momentos.

Nem todos os momentos que estão lá serão felizes, mas esses são parte do que nos constitui, somos hoje o resultado dessa história que escrevemos, amanhã seremos outros, olhemos para miscelânea de momentos, sem esquecer do presente, pois é nele que reside a possibilidade de costurar mais um momento, o ideal é somar momentos felizes, mesmo que pequenos; é o investimento para o futuro que garantirá uma vida mais bela e confortável, sendo esta colcha de retalhos, nosso porto seguro, onde podemos nos aquecer sempre que preciso; sendo também o lugar onde iremos dormir.

Milton Lavor

O melhor presente para as mães…

O dia das mães é uma data importante, um marco verdadeiro na passagem do ano, onde nós podemos expressar amor pelas mulheres mais importantes do mundo, e, essa oportunidade, deve ser plenamente aproveitada. Um bom observador, encontra o que deve aprender; vendo o instinto primeiro, uma mãe e seu bebê; abraços e beijos dão o tom dos encontros, há foco nos abraços, demorados e apertados, respirando o momento, tentando guardar bem na memória cada detalhe, cheiro, calor, textura, a mãe permite-se o momento, se entrega a conexão, pois sabe o valor de tudo isto. Possivelmente, esse momento será um tesouro guardado nas lembranças dos dois, um momento que não tem preço.

A mãe é a porta de entrada para o mundo, o canal pelo qual recebemos e aprendemos a enxergar o amor, e ainda são elas que nos ajudam nas passagens entre as fases da vida, até certo ponto, nossas relações, com nossas mães, darão a tônica das nossas relações afetivas, então para consertar algo em si, comecemos com nossas mães, o processo será muito mais significativo, duradouro e profundo. Sejamos capazes de expressar afeição. Conversar com ela, se possível, como um ser humano, passível de erros, com expectativas e desejos; com a mesma vontade — e direito — de ser feliz que a sua. Logo, boas palavras, bons pensamentos e boas ações devem permear os diálogos, mas também compreensão, pois somos imperfeitos, em constante mudança, aprendendo a lidar com o todo e com nós mesmos; é complicado para todos nós, lembremos que ela não é diferente. Demora um tempo, e talvez possa ser traumático retirar a mãe do altar; mas saibamos, o altar é solitário e muito afastado do calor do filho, também é incompatível com a condição de ser humano, então trazê-la para perto será melhor para todos os envolvidos, se ainda não o fez, considere seriamente a possibilidade, e veja um mundo de possibilidades se abrir para você e sua mãe, sem contar que é muito mais fácil compreender outra pessoa, a partir do mesmo plano. A felicidade não se espera, devemos agir.

Com essas mulheres, temos os primeiros encontros com o amor abnegado, que só iremos entender, ao olhar para os nossos próprios filhos, ou, ao escolher alguém para cuidar como um filho. Acredito que no ciclo da vida, o aprendizado mais próximo da plenitude, passa pelo ato de cuidar, é o amor derradeiro, doar-se em prol do outro, e isso, todas as mães fazem em dado momento da vida. Por isso exercem tanta fascinação, pois o fazem, primeiramente de corpo; compondo uma canção, que tomará fôlego, e ecoará vida; e que mesmo tendo sido dela, também será do mundo. É difícil condensar em palavras, a complexidade e grandiosidade desse amor, como filhos, temos o vislumbre desse, nos olhos de nossas mães; somos o destinatário desse amor, mas temos que aprender muito mais com elas sobre como doar-se em amor. O filho que evolui, ao ponto de amar sua mãe, como ser humano, poderá dar a ela, o maior presente que alguém pode receber, alguém que ama por completo.

O mundo que me fez desperto

O tempo esculpiu o feto,
O afeto deu-me o nome e o riso,
O vento que vence o concreto,
Sem sucesso, me deixou o piso,
Ascendendo, perfurando o teto,
Vencendo o que for preciso,
Na crença de ser mais correto
Buscando o meu paraíso.

Seguindo no caminho certo,
Incerto se estou sozinho,
Selvagem e voraz decerto,
Às lágrimas que fui mesquinho.
Confesso não ter descoberto,
Me entrego ao teu desalinho.
Razão da qual não me apego,
Julgado, encontrei o Meirinho,
O destino, que me fez completo,
Deixou-me ser passarinho.

Milton Lavor

Insurgência nordestina

Nordeste, insurgente desde sempre, pois é na dor da privação que desperta, à flor da pele, a condição humana de fragilidade; e com ela, a empatia. O nordeste é o ponto de resistência, pois a condição de povo é pungente por aqui. Não somos “um” povo — como muitos pensam — somos o povo, de verdade, excluído, periférico; somos parentes das favelas, somos sobreviventes. Somos quem sente na carne, a faca da fome, e a dor da pobreza, então lutaremos sempre, até por aqueles que não querem se ver como povo. Pois, cedo ou tarde todos lembram de suas raízes, e buscam redenção no chão que inevitavelmente os acolherá, é o que fazem sempre os nossos, aceitam os desgarrados como partes de si, pois entendem, que é fácil errar nessa realidade cortante, e não é o erro que destrói uma família.

A condição de povo é a marca que não se pode apagar, pois o sofrimento sempre estará à espreita de quem a possui, e enquanto não houver consciência e cuidado com as pessoas; é aqui — no nordeste —, abandonados à própria sorte, com o sol queimando em brasa, que nasceu o povo, que deu origem às periferias das grandes cidades, que saiu de uma situação de abandono e privação para outra, que prospera e sobrevive, até hoje, no limite, com a verdade latejando no peito, esperando uma fresta na casca da ignorância, para restaurar a empatia com os seus e lutar, conosco e por todos.

Os tempos podem ser sombrios, mas nós somos maioria, somos mais fortes; forjados pelo sistema que deveria nos engolir, moldados pelo calor que deveria nos cozinhar e afiados pelas pedras que deveriam nos quebrar. Seremos nós na trincheira, nossa voz nas fileiras, galerias e becos; nós e nossa família, irmãos de sangue e de luta, espalhados pelo Brasil, tendo em comum a condição de povo e a chama insurgente, que nos instiga a olhar no espelho e perguntar o porquê… E é suficiente para começarmos uma nova história.

Haverá um tempo para reconciliação, onde tomaremos consciência da nossa condição de povo, com esta, a condição de nação, e aí sim, dar-se-á uma reação em cadeia, de patriotismo, nacionalismo e trabalhismo; o bem estar social como meta, a cultura de paz como obsessão, uma miscelânea virtuosa, onde a única alternativa é o crescimento e a prosperidade, e todo esse obscurantismo, será uma lembrança de um passado remoto; mais uma vez, e quantas forem necessárias, até alcançarmos o que é nosso, até não haver mais força na ignorância que possa ofuscar a verdade.

(Foto: ‘Sertão sem fim’ – ©Araquém Alcântara)

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