Compreender os limites torna a compreensão ilimitada

O cérebro é incrível… A imagem é preto e branco com listras coloridas, mas o cérebro preenche o resto.

Mas esse tipo de coisa deveria gerar algumas reflexões. Se vemos cores onde não há, então é possível que a realidade que temos como verdade não seja o que acreditamos que é.

Através dessa foto é possível entender que a nossa percepção não é perfeita, logo deveríamos ser mais humildes. Mesmo que seja óbvio que falhamos, que erramos e que não entendemos o tempo todo, a postura geral, é de certezas inabaláveis, e isso tem degradado a condição humana, numa polarização cada vez mais abjeta. Há uma radicalização em curso, e é por isso que estamos testemunhando mais do pior de cada um. A certeza tem sido tanta que parece haver uma licença para exibir de maneira descarada o que antes estava oculto pela hipocrisia.

O problema não está em mostrar ou não a feiura, mas na certeza, pois quem está convicto do erro não tem salvação. A ausência de humildade está nos distanciando de uma noção que deveria ser vivenciada diariamente; somos humanos, somos falíveis, limitados de diversas maneiras, podemos e devemos refletir sobre tudo para termos a chance de melhorar um pouco; nós mesmos e nosso entorno.

Melhor ser um aprendiz e ter o novo como perspectiva do que ter certezas e permanecer no mesmo lugar.

Como diz a sabedoria budista: “Não cabe mais chá numa xícara cheia.”

Milton Lavor

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É no silêncio que se bebe do cale-se

E tudo mais é oração,
Se não há mais sentido na voz.

No som nos vem a lição,
Que está apenas em vós.

O vento que canta a canção,
Se encanta com o vem de nós.

Poder ser e viver em razão,
Atando e desatando nós.

Pois somos os seres irmãos,
Que ensinam-se por meio de voz.

Que fala por todos os vãos,
Em tudo que diz essa foz.

Palavras vem do coração,
Sussurros do rio veloz.

Nas águas do mar de emoção,
Estendendo os sentidos de voz.

Milton Lavor

Esculpindo as máscaras com letras e fotos somos a imagem do fracasso, como sociedade

Tenho fugido de mim, me escondendo da dor, da depressão, da luta que deveria travar, da ausência de força e significado que tem sido a vida. Encontrei refúgio nas letras, palavras e versos, que me ajudavam a condensar coisas grandes e dolorosas demais para entender, para compreender olhando para baixo; tem sido assim há um tempo, o sorriso mascarando o cansaço, enquanto tudo ia saindo dos trilhos alimentando o ciclo de frustração.

Me disfarcei por tanto tempo atrás das palavras, que acabei acreditando em algumas delas, mas isso me levou a pensar sobre essa prática e sua correlação com uma onda de estresse, ansiedade e depressão que tem estado em pauta nos últimos tempos. As redes facilitaram o contato, mas seus efeitos colaterais estão sendo sentidos na sociedade. O contato por mensagens de texto, tem nos permitido mascarar sentimentos e acumular males, somatizando mazelas da mente, tendo como resultado, pessoas cada vez mais distantes umas das outras.

Por não vermos os interlocutores, mentimos uns para os outros, acostumando-nos a interagir com máscaras criadas para se adequar ao que se espera de nós, e não com pessoas de verdade. Queremos acreditar nessas imagens criadas, pois temos muito peso na vida para nos preocuparmos com a possibilidade de que o outro possa estar mentindo também sobre sua condição, e nisso, sem questionar, validamos o comportamento que está corroendo a interação “humana”; dando lugar a imagens esculpidas em fotos e letras, para simular felicidade, ou tentar resumir a vida àquilo, para não pensar que há muito mais.

Será que isso é saudável?

As letras, as fotos; todas essas imagens podem e devem ser usadas, mas para falar a verdade. Resgatar a arte; onde o artista usava de mentiras para falar a verdade, ecoar o que a hipocrisia esconde e tocar o ser pálido por trás da máscara. Há um potencial revolucionários nas redes, que começou gigante e cheio de promessas; agora tudo está sendo redirecionado, sendo subvertido por interesses comerciais. Estão transformando em produto tudo o que deveria ser apenas a humanidade sendo o que é. As letras devem comunicar a verdade, transmitir e exprimir, o que é difícil de falar, ou o que se perdeu numa oportunidade de dizer, mas que seja real, e não um subterfúgio. Assim poderemos entender melhor o que se passa, conosco, com os outros e com o mundo; dirimir questões, diluir ódios quem sabe…

“Conhecereis a verdade e esta vos libertará”, não é isso? Podemos entender melhor, e talvez aprender; a estender os limites do amor, da amizade, da honestidade, da cooperação; e quem sabe, redescobrir a humanidade no processo.

A vida, o caos e o brain fog

A vida, normalmente, é o maior vetor de frustração do indivíduo, somos constantemente bombardeados com ideais que estão distantes da realidade comum, e isso se deve a alguns fatores…

Antes de falar dos fatores, devo esclarecer o motivo pelo qual resolvi escrever sobre essa temática; os motivos são muitos, pois há um constante sentimento de inadequação que, todos os dias, me joga na cara o quanto ainda não fiz, praticamente, nada do que propusera. É fácil sentir-se um fracassado, principalmente quando os parâmetros mudam de acordo com o tamanho do indivíduo, sempre haverá alguém maior, logo, a frustração já é certa, não é justo, mas é útil como mecanismo de controle, pois torna a sua vida um dado, que será inevitavelmente menor e menos atrativo que o ideal posto em evidência. Não é exatamente algo contra você, mas um fator de inadequação utilizado para manter um fluxo de recursos numa determinada direção. São os seus sentimentos, alimentando um gigantesco esquema de pirâmide, onde todos vendem sonhos e ideais, mesmo que ninguém tenha alcançado essa “iluminação” da forma que está sendo vendida.
Não conheço vocês, mas a minha vida é um caos, as motivações vêm e vão, de tal maneira que não dá tempo de fazer muito com elas; tudo é interessante, mas dura muito pouco esse interesse. Tudo o que me tornaria alguém mais adequado para “fazer mais dinheiro”, demanda tempo, esforço e dedicação, mas esses itens são difíceis de dominar, pelo menos para mim. Sou um desastre em tudo o que não me traz paixão, e só tenho conseguido estar absorto na escrita, o que seria muito bom, se isso me rendesse dinheiro, o que não é o caso. Sendo assim, oscilo entre a frustração e as críticas externas, onde pessoas, mesmo que bem intencionadas, comparam-me com quem eu não sou; com vidas que não vivi, sempre buscando o ideal de sucesso vendido, e comprado, por todos nós; uns mais, outros menos, mas todos somos vítimas, condenados a sermos insuficientes uns para com os outros.
Nesse ínterim, temos uma constante, desgastando as relações humanas sem qualquer remorso, e isso cansa, a todos os envolvidos, pois o desgaste é democrático; quem fala, quem escuta, todos, tem sua cota…

Perdidos nesse ciclo de insatisfação, acumulam-se as mazelas da mente, daí vem o chamado “brain fog” [névoa mental], uma confusão mental, onde parecemos estar confusos, fora de foco, a mente parece estar “apagando”, o processamento fica comprometido de forma que o próprio sentido das coisas parece nebuloso. Essa condição, pode ser causada por estresse, deficiência de vitaminas, problemas de sono e/ou como uma comorbidade, em casos crônicos de ansiedade. Essa condição é a cereja do bolo, onde você começa a enxergar —ou pelo menos deveria— a gravidade da situação, pois isto já é um sinal de alerta, para nos atermos às razões desse problema. Quando nossa mente começa a falhar, devemos mudar.

É onde estou agora, e talvez seja por isso que estou tentando escrever sobre o assunto. Para entender melhor essa cadeia de eventos… Voltemos; a realidade é mais fácil do que aparenta…

Os fatores de comparação da vida são falsos, pois eles não representam vida, mas uma leitura superficial desta, apenas uma caricatura, sem o peso de uma história, logo qualquer comparação com quem você é, será falha, pois os dados estão incompletos.
Há também a questão da falseabilidade da fantasia, é uma característica do entretenimento, embotar os sentidos de maneira a fazer-nos crer no engano, e nos entregamos a esse de maneira voluntária, pois a vida é complicada demais, logo, é aprazível a entrega, mesmo que momentânea, ao que não é vida. Mas devemos ter em conta, lembrar sempre que essas fantasias não são vida, são imagens criadas para entreter e estão longe da realidade.
Após todo esse percurso fica a questão: Há esperança?

Acreditarei sempre que sim. Agora mesmo, durante essa reflexão, consigo perceber, e compartilhar; a solução, —assim me parece— está em buscar suas razões, entender o que é a sua arte, o que você faz, e ama. Entender isso é um processo, é difícil e requer coragem e perseverança, pois o amor, não necessariamente, irá buscar dinheiro, e isso, costuma ser um problema, mas devemos ter coragem de perseguir algo que satisfaça a alma, talvez aí esteja um passo crucial para ressignificarmos toda uma estrutura social, que tem gerado tanta insatisfação e tantos insatisfeitos.

Já que praticamente nada faz sentido, —no sentido monetário da vida— acabo perdido, pois faz pouco sentido aprender algo para ganhar mais, quando há tanto que não entendo sobre o mundo, sobre mim e sobre a vida em si. Por isso, acabo dedicando mais tempo a entender o que se passa, pois faz mais sentido entender esses processos, antes de aventurar-se, não? Acredito ser mais proveitoso, obter mais informações sobre o que sou, quem sou e o que move esse ser. Talvez aí esteja a chave para a porta que oculta o verdadeiro caminho; aquele que fará sentido, que trará alegria, transfigurando a vida, do perambular trôpego usual em algo sublime. Não sublime da forma que se vende, mas embevecido pela alegria de vivenciar o amor por seu ofício. Que sendo a expressão do que enleva, basta em si; tendo a satisfação do que faltava, tudo o mais será mais fácil, pois nenhuma verdade externa será maior que uma verdade, advinda do amor.

Milton Lavor

A medida do mundo; é a visão ou o cinismo?

Estava pensando aqui, quando foi que a percepção individual da “verdade” passou a ser regra? Será tão difícil assim, entender-se como falho, alguém em construção, um caminhante na estrada da vida? Será assim tão difícil parar de “cagar regra” para os outros que não são você? Como é possível buscar uma convivência harmoniosa socialmente, se não somos capazes de aceitar nossas falhas e enxergar a limitação como um fator intrínseco? Mantendo a dúvida e amenizando as certezas, e com isso, reduzindo o hábito de julgar… Quanto mais estudo, mas entendo que sei pouco, que minha visão é limitada, que minha percepção está eivada de máculas…

Por quê temos tanta gente julgando, e tão poucas fazendo perguntas? Será que a preguiça de pensar e o medo de se ver, irão guiar a nossa existência até o túmulo?

É difícil imaginar que tantas pessoas preferem viver sem entender a si. Que há satisfação em viver fazendo o mesmo de sempre, acreditando nas mesmas coisas, sem duvidar nem por um segundo de sua visão particular de mundo. Me parece muita presunção, sabe?

Como é possível, pensar no mundo, nas visões, nas inteligências todas, uma montanha de conhecimento; mas mesmo assim, a parcialidade da visão própria de mundo, permanece intacta, e ainda assim, um contrassenso, essas mesmas pessoas demonstram inseguranças infantis… Como é possível que alguém possa manter-se impassível ante ao universo vasto de sua própria ignorância?

Me tira o sono o “não saber”, pois tenho medo de ser infiel; primeiramente comigo e depois com a verdade. Parece-me, que negar a verdade, ou não buscá-la com todas as forças, é a contribuição definitiva para a injustiça, a mentira, e daí em diante, diversas mazelas que oprimem o potencial maior que temos, em algum lugar do futuro…

Milton Lavor

O dia que descobri sem entender, o melhor do dia…

Lala

Na areia do mar
São escritas as lendas
Onde ao luar
No mistério vê-se a fenda
Solta no ar
Uma fada de luz
Brinca com as ondas
Brincando seduz
Chamo as estrelas
Do céu e do mar
Como é bom vê-las
Sorrir e brilhar

Fiz esse poeminha para a minha irmã, há uns 15 anos… Procurando algo em meus cadernos, encontrei isto e lembrei do dia em que isso ocorreu…

Houve um tempo, em que eu forçava os limites, passava algumas noites em claro escrevendo, pois estava convencido de que deveria dormir apenas um dia, ficando acordado no dia seguinte, e assim o fiz, por pouco tempo, devo acrescentar… Juventude é uma época engraçada; tanta potência e tanta prepotência, que o conhecimento de si, não é lá algo muito atraente. Há tanta força, que as consequência não intimidam, e talvez por isso, essa —e outras— experiências, faziam sentido, pelo menos matematicamente a conta fechava, mas sempre faltam dados quando a equação é montada por alguém inexperiente.

Bem… Minha irmã, sempre me pedia para ir comigo à praia, porque após a morte do nosso pai, ela saia pouco, então combinei com ela, que devia ter seus 13 anos e com minha outra irmã, —achei que deveria ser justo também com ela e levá-la também— quatro e quarenta e cinco, vou acordá-las, elas são crianças e como tal, a vontade de sair do aconchego da cama pouco antes do sol nascer, não é muita não. Mas trato é trato, e insisti um pouco. Marianne desistiu, mas Laurênia [Lala] acordou. Esperei ela se arrumar, e caminhamos até a praia, morávamos a poucos quarteirões na época. O céu, ainda estava uma miríade de cores e formas, o tempo estava nublado, frio ainda; o sol já havia saído, mas ainda não tinha se apresentado, estava colorindo as nuvens pesadas, em tons de azul e roxo, que a luz do sol tornara laranja, vermelho e rosa. Nas ruas, quase não havia movimento, e caminhamos quase sem conversar, até avistar a areia.

Chegamos e o céu estava mais claro, o azul e o roxo, estavam dando lugar aos tons de amarelo, mas ainda havia laranja e rosa, tudo misturado, um céu lindo, uma pintura, que não haveria outra igual. O cheiro do mar, o barulho das ondas, a textura da areia, aquilo energizou minha irmã, que não se conteve e começou a correr. Sorria, pulava, rodopiava no ar, naquele momento, percebi a beleza que há no agora, a inocência daquela criança, que junto comigo, havia perdido o pai, cuja família perdera uma parte da estrutura, estava feliz; pela praia, pelo passeio, pela beleza que havia em todos os lados, não havia brecha para nada que não fosse o belo. A inspiração daquele momento, era densa, porém minhas limitações eram maiores do que são hoje, só consegui fazer um poema curto, só aproveitei aquele momento, mas o aprendizado demorou muito para chegar, esqueci, durante muito tempo aquele céu, a alegria e o riso, que me trouxeram uma lição que demorei muito a compreender; a vida continua, há pouco tempo para gastar com o que passou, melhor mesmo, é se deixar encantar pela vida, pela beleza, onde a alegria inocente de ver o céu e o mar são tudo o que interessa, e dedicar-se a isso por um momento, faz toda a diferença do mundo.

Milton Lavor

O tempo, o vento e o mar

Navegamos no tempo,
Mas esse, não se deixa navegar.
Não nos é permitido,
Então temos que ousar.
Nosso destino na torrente,
É sempre contrariar,
O que impõe a corrente
O que diz esse mar.
Somos levados pelo vento,
Arrastados pela maré;
E fustigados pelo tempo, buscamos,
Com algum sucesso até…
Remar com as mãos
Numa montanha de esforço.
P’ra obter algum progresso,
P’ra livrar o pescoço.
Na esperança de ter o que peço,
Ansioso por achar direção.
O cansaço nunca confesso
Pois parar nunca foi opção.

Somos insignificantes ante o tempo,
Somos grão de areia nesse mar.
O tempo e o vento nos olham,
Estamos no mesmo lugar.
Mas diante dos nossos olhos.
Aquela distância ínfima para o mar,
É uma jornada trilhada,
É o caminho e a estrada,
É o que chamamos de vida,
É o nada, que nos coube nadar.

Milton Lavor

Súplica ao medo

 

Que se vá de minha alma,
E devolva o espaço que é meu,
Que permita a volta do belo,
E amanheça o que anoiteceu.
Medo que mora em meu peito,
Irás, e não serás saudade.
Sem ti, no meu dia perfeito,
Com o bem, tudo o mais é vontade,
Potência a que sou afeito,
Meu jeito de eternidade.

Milton Lavor

Existência dormente

Amargarei minha solidão, recluso em desespero e melancolia, onde a respiração terá um eco de dor, um suspiro advindo do corpo alquebrado…

Agonia será meu fardo, e a dor pontuará cada palavra de expressão de uma vida sem calor.

O frio levará embora a sensibilidade, e todo toque perecerá nesse dorso que só conhece agruras.

O amanhã uma promessa de pesar, para quem hoje sobrevive por costume e não por gosto.

Não serei mais nada em vida, pois assisti o meu próprio funeral, onde a esperança jaz sem alento.

Minh’alma será só uma lembrança, na casca oca que restou-me ser.

Ademais, o mundo já não será meu lar, mas o julgo de uma existência vazia de significado; e será o tempo que me resta, o prazo deste cárcere, onde forçado a estar, vivo.

 

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