O som que anuncia as flores

Há tempestades;
mas não aquela.
Seus trovões ecoam,
mas só na memória,
onde esteve a dor.

Descarregando
todo cúmulo no ar,
que se vai,
clareando o horizonte.

Houve o som que se foi…
Percebe? Não há mais…
Não se ouve,
pois se foi.
E ver que não há;
é sinal que vencemos.

E aos vencedores,
o mundo melhor

Tendo ciência
que é possível crer.
Tendo certeza
que se pode orar.
Estando certo
do que não se pode ver.
E entender
o que se pode achar.

Finda a batalha, vem lição,
que mantém o coração forte:
Não saímos perfeitos,
mas estamos melhores.

Milton Lavor

Viver plenamente

A vida não se restringe,
Como o ser não se contém.
Mesmo que contido, finge.
Há sempre sementes em alguém

São lembranças de abraços.
São muitas marcas de amor.
É o chão mantido por laços,
Firmado em pétalas de flor.

Realidade que cerca, mas não prende.
Com o afeto que prende e faz voar.
Nas asas do sonho que entende
Que o sentido está em desejar:

O bem que sacia falta;
O querer que ignora a dor;
O que vale e não compra nada;
O comum que mais tem valor.

O viver que ecoa em nós,
Ligando cada emoção.
É tudo o que fala a voz.
Pulsando, nos faz irmãos.

E batendo irrompe o peito,
Indicando a sua razão.
Da ação cujo sujeito
Encontra no coração.

A busca da promessa do amanhã.
Escutando a voz no pensamento:
No momento, essa história é vilã.
Na história, isso é só um momento.

É o vento que move o “se”
Que voa até ser “será”.
Na busca do que há em si,
É que mora o melhor lugar.

Onde nascem os sorrisos amados;
Luz dos olhos que a alegria diz.
Conclusão do que está consagrado:
Vida plena está; no que nos faz feliz.

Milton Lavor

Eu

Sou feudo dos sonhos que viram jamais;
Os beijos no espelho que indicam o não mais;
Os medos que tornam os sonhos mortais;
Os dedos que julgam se achando normais.

Sou o mundo mudo que não muda e mente,
O final banal que fugiu contente
E o mais comum, fingindo o diferente.

Sendo tanto e tudo e um tanto faz
Vendo o absurdo e pedindo mais.
Assistindo o vento me varrer mordaz.
Desgastar meu tempo e me deixar pra trás.

As digitais no espelho
Não aquecem a pele.
E o meu melhor conselho,
É que seja breve

No sentido das palavras;
Na busca da razão.
E em qualquer emboscada
Que fizer o coração.

Sou o instante instado a criar.
O mortal que busca o eterno.
Sou o que posso e tento mudar
Pois ser menos seria o inferno.

Milton Lavor

Verdade do meio

O pouco que faço que ajuda a enxergar;
O tanto de tudo que penso
Sobre o que deveria ser e não é.
São sonhos de um mundo mais humano;
Onde o ser para si, não isole o outro…

Com alegria consagrada respeitada em toda pele
O sorriso garantido em seu lugar de fala,
A expressão assemelhada a devoção da prece,
Perfumando com a harmonia que a paz exala

Condensando um sentimento, entra a cor da arte.
Compilando algum momento, escrevendo a sorte.
Conduzindo o pensamento que em palavra parte.
Jogar com que tem no peito e apostar com a morte.

Gotejando frases num espelho d’água,
Perturbando a letargia vem a nova imagem.
Pincelando as agonias pra curar a mágoa,
Reunindo energia e traduzir miragens.

Tudo que expressa o que é em mim
E todos os começos
Que na arte encontram fim

Uma palavra num fôlego,
Muitas palavras num som;
Nenhuma palavra e contornos,
Diversas cores e um dom.

É tudo parte,
É tudo um meio,
É tudo o meio
É tudo arte…

Cada letra uma gota d’água

E sem perceber,
Estamos perdidos nesse mar.
Um poema formando onda,
Me carrega sem me ver lutar.
Vou perdido, afogado em águas.
Navegando sem saber nadar.

Me encontrando ao morrer de amor,
Inundado com tantas palavras.
Nos vazios que ecoavam dor,
Silenciados quando a alma fala.
Os poemas, nem todos de amor,
Mas as vozes são da essência rara.

Milton Lavor

Unidos pelo que nos separa

Ignoram a ciência, o bom senso e a congruência;
A lógica, os dados,
Os fatos e o bem.Ignoram a bondade, a humanidade e a realidade;
O caminho e a verdade
E a religião dizendo amém.Ignoram o outro, o diferente e o distante;
Os escritos e os conselhos…
Os espelhos.

Ignoram a si.
Ignoram o que são.
O que deveria ser importante…

E Ignoram o que ignoram.
Somos eles,
E eles, somos nós,
Uns mais, outros menos
Ignorantes.

Milton Lavor

Não estamos sozinhos – Setembro amarelo

Somos todos componentes do universo, planetas, satélites, astros, mundos. Todos exercemos papéis específicos para nós mesmos e para os outros. Esses mudam de acordo com a perspectiva e o momento da vida, e todos são importantes, pois são parte do aprendizado de todos.

O que pensamos é parte do tecido da realidade. O que somos compõe a base que sustenta tudo. Somos o influxo que molda o que há, e também a chave para tudo o que virá.
Somos nós que mantemos a potência da vida, que fenece sempre que alguém se ausenta, pois carregamos a importância de sermos quem somos, habitando corações e mentes. Fluxo e refluxo do bom do bem e do possível.

Podemos esquecer da relevância da nossa existência, pois o barulho e o caos distraem a percepção, é normal, somos apenas humanos e é por isso que existem tantos de nós; tão diferentes e tão iguais, em tantos momentos da vida e da existência, e com perspectivas que nunca teremos acesso.

Todas as peças estão dispostas, espalhadas por aí, todos temos o que alguém precisa, e há sempre alguém que tem de sobra o que é necessário para nós. Somos todos necessários. Somos todos importantes. Somos todos uns dos outros. Somos todos vida.

Não estamos sozinhos, sempre tem alguém disposto a ajudar…

P.S.: Podemos nos sentir sozinhos, mas ser só não é algo que caiba na condição humana. Somos seres sociais, dependentes uns dos outros, de estruturas criadas e sustentadas de forma coletiva. Somos todos amarrados por laços que não se podem ver, mas que podemos sentir.

O tecido da realidade é feito pelo fio vermelho do destino de cada um de nós, entrelaçados formando a trama que compõe tudo. Somos todos valiosos e temos lugar reservado em vários corações espalhados pelo mundo. Há sempre vaga.

É possível pensar que não temos ninguém, mas posso afirmar que há sempre alguém, a resposta está na busca.

A construção do “eu” passa pela compreensão dos valores e dos papéis de cada parte que compõe o que somos.

Primeiro o equilíbrio; dentro dessa temática, entre o que é seu e o que é do seu meio. Equilibrar entre o somos para nós e o que somos para os outros. Alguém que se vê só, não está equilibrado na parte do ser para os outros; ao passo que alguém que não sabe ser para si e só consegue afirmar-se por meio dos outros, está desequilibrado no aspecto do ser para si. Equilibrar as diversas vertentes da nossa existência é um processo difícil, mas é o aspecto mais instigante da jornada em direção à sabedoria.

Somos todos partes da vida e da história uns dos outros, os laços são os mais diversos, não existem fórmulas ou moldes, mas é fato que estamos todos atados de alguma maneira, uns mais próximos, outros mais distantes, mas todos ligados pelo fio que tece tudo. É por isso que estamos aqui e somos muito valiosos.

Apressado em ir devagar

Apressado em ir devagar
(Milton Lavor)

Quando dei por mim, estava indo rápido
Perdendo os detalhes, deixando muito passar.
Então fui desacelerando e percebendo
A necessidade de ir devagar.
Estava envolvido com mundo,
Buscando achar um lugar.
Quisera o mergulho profundo
Que fora não vou encontrar.
E foi reduzindo o passo,
Mudando a forma do olhar.
Contemplando esse novo espaço
Sem pressa me fiz divagar.
Me perdi na vastidão do horizonte.
Explorando a intransponível escuridão.
Havia muito atrás da pálpebra.
E foi lá que encontrei minha razão.

Esse poema surgiu enquanto assistia a esse vídeo do canal Antídoto.

O retorno em relação ao tempo investido é imenso.

Compreender os limites torna a compreensão ilimitada

O cérebro é incrível… A imagem é preto e branco com listras coloridas, mas o cérebro preenche o resto.

Mas esse tipo de coisa deveria gerar algumas reflexões. Se vemos cores onde não há, então é possível que a realidade que temos como verdade não seja o que acreditamos que é.

Através dessa foto é possível entender que a nossa percepção não é perfeita, logo deveríamos ser mais humildes. Mesmo que seja óbvio que falhamos, que erramos e que não entendemos o tempo todo, a postura geral, é de certezas inabaláveis, e isso tem degradado a condição humana, numa polarização cada vez mais abjeta. Há uma radicalização em curso, e é por isso que estamos testemunhando mais do pior de cada um. A certeza tem sido tanta que parece haver uma licença para exibir de maneira descarada o que antes estava oculto pela hipocrisia.

O problema não está em mostrar ou não a feiura, mas na certeza, pois quem está convicto do erro não tem salvação. A ausência de humildade está nos distanciando de uma noção que deveria ser vivenciada diariamente; somos humanos, somos falíveis, limitados de diversas maneiras, podemos e devemos refletir sobre tudo para termos a chance de melhorar um pouco; nós mesmos e nosso entorno.

Melhor ser um aprendiz e ter o novo como perspectiva do que ter certezas e permanecer no mesmo lugar.

Como diz a sabedoria budista: “Não cabe mais chá numa xícara cheia.”

Milton Lavor