Verdade do meio

O pouco que faço que ajuda a enxergar;
O tanto de tudo que penso
Sobre o que deveria ser e não é.
São sonhos de um mundo mais humano;
Onde o ser para si, não isole o outro…

Com alegria consagrada respeitada em toda pele
O sorriso garantido em seu lugar de fala,
A expressão assemelhada a devoção da prece,
Perfumando com a harmonia que a paz exala

Condensando um sentimento, entra a cor da arte.
Compilando algum momento, escrevendo a sorte.
Conduzindo o pensamento que em palavra parte.
Jogar com que tem no peito e apostar com a morte.

Gotejando frases num espelho d’água,
Perturbando a letargia vem a nova imagem.
Pincelando as agonias pra curar a mágoa,
Reunindo energia e traduzir miragens.

Tudo que expressa o que é em mim
E todos os começos
Que na arte encontram fim

Uma palavra num fôlego,
Muitas palavras num som;
Nenhuma palavra e contornos,
Diversas cores e um dom.

É tudo parte,
É tudo um meio,
É tudo o meio
É tudo arte…

Cada letra uma gota d’água

E sem perceber,
Estamos perdidos nesse mar.
Um poema formando onda,
Me carrega sem me ver lutar.
Vou perdido, afogado em águas.
Navegando sem saber nadar.

Me encontrando ao morrer de amor,
Inundado com tantas palavras.
Nos vazios que ecoavam dor,
Silenciados quando a alma fala.
Os poemas, nem todos de amor,
Mas as vozes são da essência rara.

Milton Lavor

Unidos pelo que nos separa

Ignoram a ciência, o bom senso e a congruência;
A lógica, os dados,
Os fatos e o bem.Ignoram a bondade, a humanidade e a realidade;
O caminho e a verdade
E a religião dizendo amém.Ignoram o outro, o diferente e o distante;
Os escritos e os conselhos…
Os espelhos.

Ignoram a si.
Ignoram o que são.
O que deveria ser importante…

E Ignoram o que ignoram.
Somos eles,
E eles, somos nós,
Uns mais, outros menos
Ignorantes.

Milton Lavor

Não estamos sozinhos – Setembro amarelo

Somos todos componentes do universo, planetas, satélites, astros, mundos. Todos exercemos papéis específicos para nós mesmos e para os outros. Esses mudam de acordo com a perspectiva e o momento da vida, e todos são importantes, pois são parte do aprendizado de todos.

O que pensamos é parte do tecido da realidade. O que somos compõe a base que sustenta tudo. Somos o influxo que molda o que há, e também a chave para tudo o que virá.
Somos nós que mantemos a potência da vida, que fenece sempre que alguém se ausenta, pois carregamos a importância de sermos quem somos, habitando corações e mentes. Fluxo e refluxo do bom do bem e do possível.

Podemos esquecer da relevância da nossa existência, pois o barulho e o caos distraem a percepção, é normal, somos apenas humanos e é por isso que existem tantos de nós; tão diferentes e tão iguais, em tantos momentos da vida e da existência, e com perspectivas que nunca teremos acesso.

Todas as peças estão dispostas, espalhadas por aí, todos temos o que alguém precisa, e há sempre alguém que tem de sobra o que é necessário para nós. Somos todos necessários. Somos todos importantes. Somos todos uns dos outros. Somos todos vida.

Não estamos sozinhos, sempre tem alguém disposto a ajudar…

P.S.: Podemos nos sentir sozinhos, mas ser só não é algo que caiba na condição humana. Somos seres sociais, dependentes uns dos outros, de estruturas criadas e sustentadas de forma coletiva. Somos todos amarrados por laços que não se podem ver, mas que podemos sentir.

O tecido da realidade é feito pelo fio vermelho do destino de cada um de nós, entrelaçados formando a trama que compõe tudo. Somos todos valiosos e temos lugar reservado em vários corações espalhados pelo mundo. Há sempre vaga.

É possível pensar que não temos ninguém, mas posso afirmar que há sempre alguém, a resposta está na busca.

A construção do “eu” passa pela compreensão dos valores e dos papéis de cada parte que compõe o que somos.

Primeiro o equilíbrio; dentro dessa temática, entre o que é seu e o que é do seu meio. Equilibrar entre o somos para nós e o que somos para os outros. Alguém que se vê só, não está equilibrado na parte do ser para os outros; ao passo que alguém que não sabe ser para si e só consegue afirmar-se por meio dos outros, está desequilibrado no aspecto do ser para si. Equilibrar as diversas vertentes da nossa existência é um processo difícil, mas é o aspecto mais instigante da jornada em direção à sabedoria.

Somos todos partes da vida e da história uns dos outros, os laços são os mais diversos, não existem fórmulas ou moldes, mas é fato que estamos todos atados de alguma maneira, uns mais próximos, outros mais distantes, mas todos ligados pelo fio que tece tudo. É por isso que estamos aqui e somos muito valiosos.

Apressado em ir devagar

Apressado em ir devagar
(Milton Lavor)

Quando dei por mim, estava indo rápido
Perdendo os detalhes, deixando muito passar.
Então fui desacelerando e percebendo
A necessidade de ir devagar.
Estava envolvido com mundo,
Buscando achar um lugar.
Quisera o mergulho profundo
Que fora não vou encontrar.
E foi reduzindo o passo,
Mudando a forma do olhar.
Contemplando esse novo espaço
Sem pressa me fiz divagar.
Me perdi na vastidão do horizonte.
Explorando a intransponível escuridão.
Havia muito atrás da pálpebra.
E foi lá que encontrei minha razão.

Esse poema surgiu enquanto assistia a esse vídeo do canal Antídoto.

O retorno em relação ao tempo investido é imenso.

Compreender os limites torna a compreensão ilimitada

O cérebro é incrível… A imagem é preto e branco com listras coloridas, mas o cérebro preenche o resto.

Mas esse tipo de coisa deveria gerar algumas reflexões. Se vemos cores onde não há, então é possível que a realidade que temos como verdade não seja o que acreditamos que é.

Através dessa foto é possível entender que a nossa percepção não é perfeita, logo deveríamos ser mais humildes. Mesmo que seja óbvio que falhamos, que erramos e que não entendemos o tempo todo, a postura geral, é de certezas inabaláveis, e isso tem degradado a condição humana, numa polarização cada vez mais abjeta. Há uma radicalização em curso, e é por isso que estamos testemunhando mais do pior de cada um. A certeza tem sido tanta que parece haver uma licença para exibir de maneira descarada o que antes estava oculto pela hipocrisia.

O problema não está em mostrar ou não a feiura, mas na certeza, pois quem está convicto do erro não tem salvação. A ausência de humildade está nos distanciando de uma noção que deveria ser vivenciada diariamente; somos humanos, somos falíveis, limitados de diversas maneiras, podemos e devemos refletir sobre tudo para termos a chance de melhorar um pouco; nós mesmos e nosso entorno.

Melhor ser um aprendiz e ter o novo como perspectiva do que ter certezas e permanecer no mesmo lugar.

Como diz a sabedoria budista: “Não cabe mais chá numa xícara cheia.”

Milton Lavor

É no silêncio que se bebe do cale-se

E tudo mais é oração,
Se não há mais sentido na voz.

No som nos vem a lição,
Que está apenas em vós.

O vento que canta a canção,
Se encanta com o vem de nós.

Poder ser e viver em razão,
Atando e desatando nós.

Pois somos os seres irmãos,
Que ensinam-se por meio de voz.

Que fala por todos os vãos,
Em tudo que diz essa foz.

Palavras vem do coração,
Sussurros do rio veloz.

Nas águas do mar de emoção,
Estendendo os sentidos de voz.

Milton Lavor

Esculpindo as máscaras com letras e fotos somos a imagem do fracasso, como sociedade

Tenho fugido de mim, me escondendo da dor, da depressão, da luta que deveria travar, da ausência de força e significado que tem sido a vida. Encontrei refúgio nas letras, palavras e versos, que me ajudavam a condensar coisas grandes e dolorosas demais para entender, para compreender olhando para baixo; tem sido assim há um tempo, o sorriso mascarando o cansaço, enquanto tudo ia saindo dos trilhos alimentando o ciclo de frustração.

Me disfarcei por tanto tempo atrás das palavras, que acabei acreditando em algumas delas, mas isso me levou a pensar sobre essa prática e sua correlação com uma onda de estresse, ansiedade e depressão que tem estado em pauta nos últimos tempos. As redes facilitaram o contato, mas seus efeitos colaterais estão sendo sentidos na sociedade. O contato por mensagens de texto, tem nos permitido mascarar sentimentos e acumular males, somatizando mazelas da mente, tendo como resultado, pessoas cada vez mais distantes umas das outras.

Por não vermos os interlocutores, mentimos uns para os outros, acostumando-nos a interagir com máscaras criadas para se adequar ao que se espera de nós, e não com pessoas de verdade. Queremos acreditar nessas imagens criadas, pois temos muito peso na vida para nos preocuparmos com a possibilidade de que o outro possa estar mentindo também sobre sua condição, e nisso, sem questionar, validamos o comportamento que está corroendo a interação “humana”; dando lugar a imagens esculpidas em fotos e letras, para simular felicidade, ou tentar resumir a vida àquilo, para não pensar que há muito mais.

Será que isso é saudável?

As letras, as fotos; todas essas imagens podem e devem ser usadas, mas para falar a verdade. Resgatar a arte; onde o artista usava de mentiras para falar a verdade, ecoar o que a hipocrisia esconde e tocar o ser pálido por trás da máscara. Há um potencial revolucionários nas redes, que começou gigante e cheio de promessas; agora tudo está sendo redirecionado, sendo subvertido por interesses comerciais. Estão transformando em produto tudo o que deveria ser apenas a humanidade sendo o que é. As letras devem comunicar a verdade, transmitir e exprimir, o que é difícil de falar, ou o que se perdeu numa oportunidade de dizer, mas que seja real, e não um subterfúgio. Assim poderemos entender melhor o que se passa, conosco, com os outros e com o mundo; dirimir questões, diluir ódios quem sabe…

“Conhecereis a verdade e esta vos libertará”, não é isso? Podemos entender melhor, e talvez aprender; a estender os limites do amor, da amizade, da honestidade, da cooperação; e quem sabe, redescobrir a humanidade no processo.

A vida, o caos e o brain fog

A vida, normalmente, é o maior vetor de frustração do indivíduo, somos constantemente bombardeados com ideais que estão distantes da realidade comum, e isso se deve a alguns fatores…

Antes de falar dos fatores, devo esclarecer o motivo pelo qual resolvi escrever sobre essa temática; os motivos são muitos, pois há um constante sentimento de inadequação que, todos os dias, me joga na cara o quanto ainda não fiz, praticamente, nada do que propusera. É fácil sentir-se um fracassado, principalmente quando os parâmetros mudam de acordo com o tamanho do indivíduo, sempre haverá alguém maior, logo, a frustração já é certa, não é justo, mas é útil como mecanismo de controle, pois torna a sua vida um dado, que será inevitavelmente menor e menos atrativo que o ideal posto em evidência. Não é exatamente algo contra você, mas um fator de inadequação utilizado para manter um fluxo de recursos numa determinada direção. São os seus sentimentos, alimentando um gigantesco esquema de pirâmide, onde todos vendem sonhos e ideais, mesmo que ninguém tenha alcançado essa “iluminação” da forma que está sendo vendida.
Não conheço vocês, mas a minha vida é um caos, as motivações vêm e vão, de tal maneira que não dá tempo de fazer muito com elas; tudo é interessante, mas dura muito pouco esse interesse. Tudo o que me tornaria alguém mais adequado para “fazer mais dinheiro”, demanda tempo, esforço e dedicação, mas esses itens são difíceis de dominar, pelo menos para mim. Sou um desastre em tudo o que não me traz paixão, e só tenho conseguido estar absorto na escrita, o que seria muito bom, se isso me rendesse dinheiro, o que não é o caso. Sendo assim, oscilo entre a frustração e as críticas externas, onde pessoas, mesmo que bem intencionadas, comparam-me com quem eu não sou; com vidas que não vivi, sempre buscando o ideal de sucesso vendido, e comprado, por todos nós; uns mais, outros menos, mas todos somos vítimas, condenados a sermos insuficientes uns para com os outros.
Nesse ínterim, temos uma constante, desgastando as relações humanas sem qualquer remorso, e isso cansa, a todos os envolvidos, pois o desgaste é democrático; quem fala, quem escuta, todos, tem sua cota…

Perdidos nesse ciclo de insatisfação, acumulam-se as mazelas da mente, daí vem o chamado “brain fog” [névoa mental], uma confusão mental, onde parecemos estar confusos, fora de foco, a mente parece estar “apagando”, o processamento fica comprometido de forma que o próprio sentido das coisas parece nebuloso. Essa condição, pode ser causada por estresse, deficiência de vitaminas, problemas de sono e/ou como uma comorbidade, em casos crônicos de ansiedade. Essa condição é a cereja do bolo, onde você começa a enxergar —ou pelo menos deveria— a gravidade da situação, pois isto já é um sinal de alerta, para nos atermos às razões desse problema. Quando nossa mente começa a falhar, devemos mudar.

É onde estou agora, e talvez seja por isso que estou tentando escrever sobre o assunto. Para entender melhor essa cadeia de eventos… Voltemos; a realidade é mais fácil do que aparenta…

Os fatores de comparação da vida são falsos, pois eles não representam vida, mas uma leitura superficial desta, apenas uma caricatura, sem o peso de uma história, logo qualquer comparação com quem você é, será falha, pois os dados estão incompletos.
Há também a questão da falseabilidade da fantasia, é uma característica do entretenimento, embotar os sentidos de maneira a fazer-nos crer no engano, e nos entregamos a esse de maneira voluntária, pois a vida é complicada demais, logo, é aprazível a entrega, mesmo que momentânea, ao que não é vida. Mas devemos ter em conta, lembrar sempre que essas fantasias não são vida, são imagens criadas para entreter e estão longe da realidade.
Após todo esse percurso fica a questão: Há esperança?

Acreditarei sempre que sim. Agora mesmo, durante essa reflexão, consigo perceber, e compartilhar; a solução, —assim me parece— está em buscar suas razões, entender o que é a sua arte, o que você faz, e ama. Entender isso é um processo, é difícil e requer coragem e perseverança, pois o amor, não necessariamente, irá buscar dinheiro, e isso, costuma ser um problema, mas devemos ter coragem de perseguir algo que satisfaça a alma, talvez aí esteja um passo crucial para ressignificarmos toda uma estrutura social, que tem gerado tanta insatisfação e tantos insatisfeitos.

Já que praticamente nada faz sentido, —no sentido monetário da vida— acabo perdido, pois faz pouco sentido aprender algo para ganhar mais, quando há tanto que não entendo sobre o mundo, sobre mim e sobre a vida em si. Por isso, acabo dedicando mais tempo a entender o que se passa, pois faz mais sentido entender esses processos, antes de aventurar-se, não? Acredito ser mais proveitoso, obter mais informações sobre o que sou, quem sou e o que move esse ser. Talvez aí esteja a chave para a porta que oculta o verdadeiro caminho; aquele que fará sentido, que trará alegria, transfigurando a vida, do perambular trôpego usual em algo sublime. Não sublime da forma que se vende, mas embevecido pela alegria de vivenciar o amor por seu ofício. Que sendo a expressão do que enleva, basta em si; tendo a satisfação do que faltava, tudo o mais será mais fácil, pois nenhuma verdade externa será maior que uma verdade, advinda do amor.

Milton Lavor

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