Súplica ao medo

 

Que se vá de minha alma,
E devolva o espaço que é meu,
Que permita a volta do belo,
E amanheça o que anoiteceu.
Medo que mora em meu peito,
Irás, e não serás saudade.
Sem ti, no meu dia perfeito,
Com o bem, tudo o mais é vontade,
Potência a que sou afeito,
Meu jeito de eternidade.

Milton Lavor

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Existência dormente

Amargarei minha solidão, recluso em desespero e melancolia, onde a respiração terá um eco de dor, um suspiro advindo do corpo alquebrado…

Agonia será meu fardo, e a dor pontuará cada palavra de expressão de uma vida sem calor.

O frio levará embora a sensibilidade, e todo toque perecerá nesse dorso que só conhece agruras.

O amanhã uma promessa de pesar, para quem hoje sobrevive por costume e não por gosto.

Não serei mais nada em vida, pois assisti o meu próprio funeral, onde a esperança jaz sem alento.

Minh’alma será só uma lembrança, na casca oca que restou-me ser.

Ademais, o mundo já não será meu lar, mas o julgo de uma existência vazia de significado; e será o tempo que me resta, o prazo deste cárcere, onde forçado a estar, vivo.

 

Felicidade de final de semana

Final de semana chegando e com ele, o pensamento no momento do lazer, mas há que se pensar; será que é saudável ser feliz apenas nos finais de semana? Ou será que a verdadeira face da felicidade nos escapa? O que é felicidade?

Possivelmente a felicidade esteja sempre presente, só não nos damos conta; é possível que ela seja, um conjunto de momentos, coisas pequenas; o cheiro do pó de café, ao abrir o pote; a admiração pela inocência de uma criança brincando ou até um abraço de um amigo, que encontramos rapidamente na correria, mas fazemos questão de abraçar. Essas coisas não são grandiosas, e costumam pairar na memória até serem arquivadas. Não há apoteose, pois são momentos corriqueiros, mas são essas frações que constroem a felicidade.

Acredito que a felicidade é isso; um mosaico de momentos esquecidos, que quando vistos à distância, vemos uma imagem; essa é a nossa vida, e é isso, que me parece ser felicidade. Há uma frustração constante, pois buscamos a felicidade episódica, instigados pela narrativa da inadequação, somos ensinados a acreditar que só há felicidade fora de nós, fora de casa, no incomum; realmente existem momentos felizes na felicidade episódica, mas isso não é felicidade em si, é apenas mais uma peça do mosaico, a chave está em olhar para dentro, e observar essa imagem, ser grato por essa estar em construção e saber apreciá-la em alguns momentos.

Nem todos os momentos que estão lá serão felizes, mas esses são parte do que nos constitui, somos hoje o resultado dessa história que escrevemos, amanhã seremos outros, olhemos para miscelânea de momentos, sem esquecer do presente, pois é nele que reside a possibilidade de costurar mais um momento, o ideal é somar momentos felizes, mesmo que pequenos; é o investimento para o futuro que garantirá uma vida mais bela e confortável, sendo esta colcha de retalhos, nosso porto seguro, onde podemos nos aquecer sempre que preciso; sendo também o lugar onde iremos dormir.

Milton Lavor

O melhor presente para as mães…

O dia das mães é uma data importante, um marco verdadeiro na passagem do ano, onde nós podemos expressar amor pelas mulheres mais importantes do mundo, e, essa oportunidade, deve ser plenamente aproveitada. Um bom observador, encontra o que deve aprender; vendo o instinto primeiro, uma mãe e seu bebê; abraços e beijos dão o tom dos encontros, há foco nos abraços, demorados e apertados, respirando o momento, tentando guardar bem na memória cada detalhe, cheiro, calor, textura, a mãe permite-se o momento, se entrega a conexão, pois sabe o valor de tudo isto. Possivelmente, esse momento será um tesouro guardado nas lembranças dos dois, um momento que não tem preço.

A mãe é a porta de entrada para o mundo, o canal pelo qual recebemos e aprendemos a enxergar o amor, e ainda são elas que nos ajudam nas passagens entre as fases da vida, até certo ponto, nossas relações, com nossas mães, darão a tônica das nossas relações afetivas, então para consertar algo em si, comecemos com nossas mães, o processo será muito mais significativo, duradouro e profundo. Sejamos capazes de expressar afeição. Conversar com ela, se possível, como um ser humano, passível de erros, com expectativas e desejos; com a mesma vontade — e direito — de ser feliz que a sua. Logo, boas palavras, bons pensamentos e boas ações devem permear os diálogos, mas também compreensão, pois somos imperfeitos, em constante mudança, aprendendo a lidar com o todo e com nós mesmos; é complicado para todos nós, lembremos que ela não é diferente. Demora um tempo, e talvez possa ser traumático retirar a mãe do altar; mas saibamos, o altar é solitário e muito afastado do calor do filho, também é incompatível com a condição de ser humano, então trazê-la para perto será melhor para todos os envolvidos, se ainda não o fez, considere seriamente a possibilidade, e veja um mundo de possibilidades se abrir para você e sua mãe, sem contar que é muito mais fácil compreender outra pessoa, a partir do mesmo plano. A felicidade não se espera, devemos agir.

Com essas mulheres, temos os primeiros encontros com o amor abnegado, que só iremos entender, ao olhar para os nossos próprios filhos, ou, ao escolher alguém para cuidar como um filho. Acredito que no ciclo da vida, o aprendizado mais próximo da plenitude, passa pelo ato de cuidar, é o amor derradeiro, doar-se em prol do outro, e isso, todas as mães fazem em dado momento da vida. Por isso exercem tanta fascinação, pois o fazem, primeiramente de corpo; compondo uma canção, que tomará fôlego, e ecoará vida; e que mesmo tendo sido dela, também será do mundo. É difícil condensar em palavras, a complexidade e grandiosidade desse amor, como filhos, temos o vislumbre desse, nos olhos de nossas mães; somos o destinatário desse amor, mas temos que aprender muito mais com elas sobre como doar-se em amor. O filho que evolui, ao ponto de amar sua mãe, como ser humano, poderá dar a ela, o maior presente que alguém pode receber, alguém que ama por completo.

Milton Lavor

O mundo que me fez desperto

O tempo esculpiu o feto,
O afeto deu-me o nome e o riso,
O vento que vence o concreto,
Sem sucesso, me deixou o piso,
Ascendendo, perfurando o teto,
Vencendo o que for preciso,
Na crença de ser mais correto
Buscando o meu paraíso.

Seguindo no caminho certo,
Incerto se estou sozinho,
Selvagem e voraz decerto,
Às lágrimas que fui mesquinho.
Confesso não ter descoberto,
Me entrego ao teu desalinho.
Razão da qual não me apego,
Julgado, encontrei o Meirinho,
O destino, que me fez completo,
Deixou-me ser passarinho.

Milton Lavor

Insurgência nordestina

Nordeste, insurgente desde sempre, pois é na dor da privação que desperta, à flor da pele, a condição humana de fragilidade; e com ela, a empatia. O nordeste é o ponto de resistência, pois a condição de povo é pungente por aqui. Não somos “um” povo — como muitos pensam — somos o povo, de verdade, excluído, periférico; somos parentes das favelas, somos sobreviventes. Somos quem sente na carne, a faca da fome, e a dor da pobreza, então lutaremos sempre, até por aqueles que não querem se ver como povo. Pois, cedo ou tarde todos lembram de suas raízes, e buscam redenção no chão que inevitavelmente os acolherá, é o que fazem sempre os nossos, aceitam os desgarrados como partes de si, pois entendem, que é fácil errar nessa realidade cortante, e não é o erro que destrói uma família.

A condição de povo é a marca que não se pode apagar, pois o sofrimento sempre estará à espreita de quem a possui, e enquanto não houver consciência e cuidado com as pessoas; é aqui — no nordeste —, abandonados à própria sorte, com o sol queimando em brasa, que nasceu o povo, que deu origem às periferias das grandes cidades, que saiu de uma situação de abandono e privação para outra, que prospera e sobrevive, até hoje, no limite, com a verdade latejando no peito, esperando uma fresta na casca da ignorância, para restaurar a empatia com os seus e lutar, conosco e por todos.

Os tempos podem ser sombrios, mas nós somos maioria, somos mais fortes; forjados pelo sistema que deveria nos engolir, moldados pelo calor que deveria nos cozinhar e afiados pelas pedras que deveriam nos quebrar. Seremos nós na trincheira, nossa voz nas fileiras, galerias e becos; nós e nossa família, irmãos de sangue e de luta, espalhados pelo Brasil, tendo em comum a condição de povo e a chama insurgente, que nos instiga a olhar no espelho e perguntar o porquê… E é suficiente para começarmos uma nova história.

Haverá um tempo para reconciliação, onde tomaremos consciência da nossa condição de povo, com esta, a condição de nação, e aí sim, dar-se-á uma reação em cadeia, de patriotismo, nacionalismo e trabalhismo; o bem estar social como meta, a cultura de paz como obsessão, uma miscelânea virtuosa, onde a única alternativa é o crescimento e a prosperidade, e todo esse obscurantismo, será uma lembrança de um passado remoto; mais uma vez, e quantas forem necessárias, até alcançarmos o que é nosso, até não haver mais força na ignorância que possa ofuscar a verdade.

(Foto: ‘Sertão sem fim’ – ©Araquém Alcântara)

Milton Lavor

Equilíbrio é a chave para um mundo melhor

É possível e provável que o que há de errado com a sociedade, seja a falta de cuidado com nós mesmos, passamos tanto tempo olhando para fora, e de tanto olhar, o olho fica viciado no mundo, faminto por ele, ofuscando a visão da mente; criando um desequilíbrio constante que nos polariza, e acabamos por adquirir um comportamento predatório em relação ao mundo e aos outros, sedentos por mais, até que a mente esteja tão cheia, que dentro de nós seja um espelho do mundo e não o abrigo da alma, do ser divino, do eu…
Equilíbrio é a chave. Há um conto que fala sobre o dia em que Siddhartha alcançou a iluminação, o trecho essencial é:

“Certo dia, Siddhartha viu um velho músico num barco que passava próximo à margem do rio, que dizia ao seu aluno:
– Se você, meu caro aluno, esticar muito a corda de seu instrumento, ela se arrebentará. E se deixá-la muito frouxa, não haverá música.
Siddhartha, ouvindo estas simples palavras, entendeu que elas guardavam uma profunda verdade.”

Temos a impressão de que há algo de errado no mundo, mas isso é um erro, só há erro nas pessoas, o mundo é o que é, e não importa o que você acredite, ele tem seu ritmo, com funções definidas e balanceadas, a terra natural é perfeita; nós que ainda temos um longo caminho a percorrer. Não somos perfeitos, mas somos perfectíveis, e é aí que está o mister da sabedoria, que mudará o que alteramos, para o mundo melhor que almejamos.

Há muito o que olhar com a mente; então vamos trabalhar, esculpindo a nós mesmos na mais bela obra que pudermos, buscando todos os dias, aperfeiçoar o instrumento que ecoa a nossa essência; nossas palavras e nossa voz, nossa alma e nossa música, em todos os sentidos; assumindo diversas formas, sendo, por vezes pensamentos, por vezes ações. Agindo e interagindo, com nós mesmos, com os outros, e com o todo. A chave que os sábios deixaram, funciona para todos; abrindo mentes, destrancando corações; mas só funciona para o mundo, quando restaurarmos o equilíbrio em nós, de maneira a abrir as portas, desse mundo melhor.

Milton Lavor

Se eu puder te dar um conselho…

Transborde e inunde o mundo com sua essência, transforme todos os ambientes, deixe todos inebriados com você, marque a todos quantos forem possíveis com a marca indelével da presença única que somos todos e seja, portanto, um pouco de cada pessoa no seu caminho… O mundo é o resultado dos encontros e desencontros; somos parte de tudo e todos e tudo isso parte de nós; sejamos então o máximo que podemos ser; transbordar é a única regra real, então, que seja sublime e edificante; poderemos não ter o amanhã pra nós mesmos, mas as nossas marcas sempre encontrarão o amanhã em alguém, e esse sol nos esquentará para além da vida em nosso corpo, através dessa compreensão, podemos ter um vislumbre, do que é eternidade no decorrer do nosso ciclo.

Viva, por favor, o mundo precisa demais de você…

Aproveitar a vida é um ato de amor próprio e transbordar amor é o passo decisivo para encher o mundo com a água da vida, frutificar em nós o melhor, alimentar o ciclo da vida e manter acesa a chama que aquece toda a humanidade. Os computadores são instrumentos incríveis, mas não devemos tê-los como substitutos de nós mesmos no mundo. A presença é indispensável no convívio, as palavras oferecem alento, mas trabalhemos no sentido de imbuir o que transborda com o bom e o bem, cada um sendo o sol de seu próprio universo.

Mudemos, numa reação em cadeia, ecoando o melhor de nós, motriz da esperança de um mundo ideal que deixaremos de herança pra todos que amamos.

Milton Lavor

A família tradicional brasileira

Essa entidade abstrata que permeia a imaginação de muitos hipócritas, é uma acepção fantasiosa e infantil de quem não consegue aceitar os próprios erros. Essa família tradicional sempre foi disfuncional em diversos aspectos — o que é parte da condição humana. A cultura e as relações se desenvolvem no cenário social, mas os interesses individuais se chocam com valores gerais sobre o que é certo e/ou moral.

Se pensarmos em termos de tempo é fácil constatar isso…

Nos anos 60 as mulheres eram cidadãs de segunda classe. Os casamentos eram realizados de acordo com interesses familiares ou financeiros e a pedofilia era praticamente regra. Quem não conhece famílias assim? Mulheres tendo filhos aos 14 ou 15 anos, entregues pelos pais sem o consentimento da criança?

Nos anos 70, 80 e 90 tivemos algumas revoluções sociais, onde parte do pensamento estava ligado ao passado, — querendo manter as “novinhas” — o que não mudou tanto assim. Todo um esquema de “negócio” e objetificação das mulheres — o que alimentou a misoginia que já existia na sociedade —, enquanto outros aplaudiam a erotização de crianças e adolescentes. Não por coincidência, a “rainha dos baixinhos” era também um símbolo sexual de seu tempo. Houve até uma “paquita” posando para Playboy mesmo sendo menor de idade, com aplauso e aprovação da sociedade conservadora e hipócrita, que demonizava outros enquanto deixavam de olhar para si. Um retrato da ignorância que imperava no período que muitos chamam — com orgulho — de “minha época”.

Tudo isso não passaria sem deixar suas marcas nos homens. A visão distorcida das mulheres e o machismo corroboraram com o que aqui está; várias gerações de homens que não respeitam as mulheres em vários sentidos tornando-as reféns da própria condição de mulher. Uma sociedade impregnada com todos os aspectos culturais aqui relatados — e milhares de outros que não tenho a condição de condensar num único texto —, só pode tratar mal suas mulheres, mas convenhamos que tem algumas pessoas que se esforçam para piorar o que já é péssimo.

Todas essas pessoas são seus avôs e avós, pais e mães, e tudo isso é a sociedade que se divide em famílias. Cada uma delas, a sua e a minha família, por diversos motivos, acabam por não “funcionar”. Somos todos uma miscelânea de erros. Alguns herdados e outros comprados e mantidos como tesouro. Não dá para sermos uma família de propaganda. Somos gente, e com tal não dá para enquadrar em padrões, rótulos ou tradições. Portanto é completamente ingênua a noção de “família tradicional brasileira”. Quem mente para os outros sobre si, está fadado a uma vida de frustração e medo; e quem mente sobre a sua família, só está multiplicando esses fatores.

A quantidade de pessoas sem o nome do pai no registro é absurda. Os que não pagam pensão. Os que não visitam seus filhos ou os abandonam. Os que traem sistematicamente, com homens e mulheres. Os que se entregam ao egoísmo e vivem apenas para si. Os abusadores e pedófilos que babam pelas “novinhas”. Os homossexuais enrustidos que traduzem em ódio o medo de se assumirem. Todos àqueles que não admitem os próprios erros e sua cota de responsabilidade. São esses que estão por aí, defendendo a família tradicional, responsabilizando governos, escolas e professores, sem olhar no espelho. Ignorando uma verdade incômoda e ostentando hipocrisia para todos, sem se dar conta, que no meio desse todos, estão os que sabem que aquilo é mentira. Passando vergonha e deixando registrado toda essa falsidade. Toda essa frustração por não saber lidar com o que repudiam em si transforma-se em ódio e esse tem sido o vetor para toda uma narrativa vexatória onde pessoas buscam expurgar algo de si atacando outros e isso não tem como acabar bem.

Se você quer defender a família, não busque um padrão. As pessoas são muito diferentes, então essa ideia de família tradicional não tem como funcionar dessa maneira. Defenda apenas a sua família. Se cada um fizer isso a sociedade ganhará muito no futuro. Façamos uma autocrítica. A nossa família não é responsabilidade da direita ou da esquerda, a família é de cada um, e cabe a nós buscar melhorar, e não será com posts moralistas nas redes sociais que algo irá mudar, mas sim com diálogo, dentro de casa.

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